LEGENDA Bora Ler: Se Um Viajante Numa Noite de Inverno - Italo Calvino


Um personagem identificado como Leitor compra o livro "Se um viajante numa noite de inverno". Seu exemplar tem um defeito e por isso ele volta à livraria para trocá-lo. Descobre em seguida que o novo volume nada tem a ver com aquele cuja leitura havia iniciado. A partir daí, envolve-se num verdadeiro labirinto de histórias. 
Vale a pena ou a galinha inteira?

Essa é minha segunda incursão nas obras do italiano Italo Calvino e assim como aconteceu da primeira vez com Por Que Ler os Clássicos, acabei me surpreendendo com a escrita do autor. No entanto, foram vias totalmente opostas. Enquanto que no primeiro livro eu me surpreendi negativamente, talvez até mesmo por ser mais um livro teórico, nesse segundo o prazer da leitura foi excepcional, mesmo que arrastado em alguns pequeníssimos pontos.

Se Um Viajante Numa Noite de Inverno é um livro totalmente diferente de tudo que já li na vida. É um livro que segue uma linha de pensamento, e se você perder esse direcionamento fica complicado de entender e até mesmo para explicar sua história. Eu seria ousado em dizer, mas essa obra se trata talvez de um livro 3D composta de várias camadas.

Temos então no decorrer do livro, três teias narrativas: i) a história do Leitor e de Ludmila que após encontrarem um defeito na impressão de um livro, tentam encontrar o restante da história para ler; ii) temos as histórias desses livros lidos pelo Leitor e por Ludmila; e por fim, iii) Calvino permeia uma rica discussão sobre o livro (o objeto livro), sobre a leitura, sobre tradução, sobre o leitor e ao fazer isso, ele quebra a quarta parede (recurso em que algum personagem, interage com o leitor), mais que isso, ele joga o leitor para dentro do livro que ele está escrevendo.

Logo no primeiro capítulo, ele irá descrever o leitor e das duas uma: ou você irá obedecer os comandos dele ou irá parar para ver se está da forma como ele diz que você está (melhor posição de leitura, a melhor forma de segurar o livro), e caso você esteja da forma que ele disse que você estaria, talvez até role um pensamento do tipo: estou sendo observado! como ele, como autor, sabia como eu estaria? E ai já começa o inception rsrsrs.

A história do Leitor é escrita em segunda pessoa, logo, Calvino já coloca você (leitor) como o Leitor personagem. Acompanhamos então o Leitor que vai a livraria comprar o novo livro do Italo Calvino, o Se Um Viajante Numa Noite de Inverno e ao começar a ler, ele descobre que a partir de determinada página, o livro começa do início novamente em um looping até o final do livro, não contendo o final do livro. Para corrigir esse erro de impressão ele vai até a livraria para a troca do livro e lá conhece a Ludmila que também comprou uma edição danificada.

O livreiro informa que houve, além desse erro, um erro nas capas, que o livro que eles estavam lendo era de um polonês e não o do Italo Calvino, contudo, como eles se apegaram a história desse novo livro, eles resolvem adquirir o livro polonês mesmo. Ao começar a ler o livro polonês, eles percebem que este possui um começo diferente, e além de também ter erros de impressão, a história não tem nada a ver com a do livro polonês que estava com a capa do livro de Calvino. Eles passam a correr atrás de uma edição verdadeira do livro para terminar de ler a história que tanto os cativaram, mas sempre algo irá acontecer que irá direcionar eles para um outro livro.

Os capítulos irão se alternar entre a história do Leitor e de Ludmila em busca do livro verdadeiro e os começos desses livros que são cortados abruptamente. Temos então dez começos de romances que irão cada um, sempre terminar de forma repentina o que acarretará para os personagens a busca pelo restante da história e com isso obtendo um livro diferente. Diferente de um conto em que você tem início, meio e fim, aqui isso não ocorre. Quando você começa a se apegar na história, o autor já corta e começa outro capítulo.

Se Um Viajante Numa Noite de Inverno é um livro fragmentado e denso que exigirá do leitor uma atenção a mais e por isso, talvez não seja aconselhável para quem está iniciando em leituras que nos tire da nossa zona de conforto.

Por fim, como segunda leitura de Calvino, ainda não posso afirmar que reconheço sua escrita e/ou que gosto do seu estilo, ainda mais quando fui do inferno ao céu com as duas obras que li, mas uma coisa tenho certeza: Se Um Viajante Numa Noite de Inverno é um livro incrível e totalmente diferenciado. Dificilmente você verá uma obra que alie essa estrutura narrativa e qualidade, isso só Calvino ao que sabe, consegue.

Por hoje é isso pessoal. Caso tenham gostado do conteúdo, não se esqueçam de seguir o Brigada Paralela também em nossas redes sociais ^^ Abraços



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